Rui Ruivo



Já conhecia o Pedro (Pinho) e a Luísa (Homem) do RDA (Associação Recreativa Regueirão dos Anjos), e de uma certa familiaridade politica que nos levou a cruzar por vários sítios. Tudo aconteceu porque eu na altura estava a trabalhar na cantina cooperativa do RDA e nessa hora de almoço tinha estado a discutir com uma outra pessoa do coletivo sobre responsabilidades em relação ao espaço, o que levou a uma conversa sobre autorresponsabilização e que nos levou a discutir o que implicava a autogestão. O Pedro e o Tiago (Hespanha) aparecem para almoçar e quando entram já apanham a discussão sobre autogestão no geral. Ou seja, eles estavam a ouvir a conversa enquanto almoçavam. No fim do almoço, já eu estava a fumar um cigarro lá fora, eles aparecem e perguntam-me se quero participar num filme. Eu pergunto que tipo de filme é esse? E eles explicam-me. O filme do nada. Eu, meio à toa, respondo que sim., pode ser. Naquele minuto. Eu costumo embarcar em aventuras assim. As “aventuras do Iá, pode ser”, costumo chamar-lhes. Quero participar.  

E tudo começou aí. Até que começaram os ensaios. Eu não tinha experiência de ator ou só tinha feito coisas de brincadeira. Agora já fiz uma curta-metragem depois d’A Fábrica de Nada. E começámos a rodagem, entrámos naquilo. E criou-se uma grande família, foi uma grande experiência. O tempo, a espera do cinema, era passado em grandes conversas e galhofas. Sempre um ambiente muito alegre e disponível. Foi giro, todos a tentar perceber as personagens, a perceber o filme e a certa altura a fabrica também passou a ser um bocado de nós. A ficção da fabrica era a feita da nossa realidade. Com todas as diferenças de experiências de vida. A Sandra, por exemplo, tinha trabalhado naquela fábrica, para ela foi muito significativo. Foi tudo muito emocional, muito de coração, muito sincero.

Vi o filme pela primeira vez em Cannes e para mim, o que vejo, é que o filme é muito bom, mesmo muito bom. E o que eu senti é que o filme tem muito coração, muita da nossa (do grupo de atores e não só, da equipa técnica também, de todos) vida. Eu não sei como é nos filmes, nos outros filmes, mas o que eu senti é que estávamos muito unidos, todos. Foi muito emocional. Todos nós transportámos coisas nossas para ali. O Hermínio, por exemplo, um personagem, muito forte, um dia antes de começar as filmagens recebeu a noticia de que a fábrica onde trabalhava tinha entrado em insolvência.

Por questões ideológicas, eu não sou um defensor do trabalho, do valor absoluto do trabalho, mas este cavalgar do neoliberalismo, em que depois de todas as lutas sociais, de trabalhadores, de direitos é cada vez menos possível falar disso... Nesta altura, falar destas outras possibilidades é preciso. Será que temos que aceitar todas as misérias que nos oferecem? Hoje em dia? Depois de tudo o que já aconteceu? O Pedro até tinha que me travar, nestas minhas ideias. “No filme, somos só um grupo de operários”.

Foi muito, muito giro. Trabalhei com amigos e fiz amigos. Foi muito bom trabalhar com o Smith (Vargas), falávamos muito sobre as nossas personagens sobre que raio estávamos ali a fazer, o que podíamos acrescentar.  

Foi uma experiência fantástica e a ida a Cannes foi um culminar incrível, vermos a sala cheia a bater palmas sem parar, com elogios, foi um momento único na vida. Não se repete.