José Smith Vargas



Tive a primeira experiência de cinema em 2013 quando participei numa curta-metragem do André Godinho (Ponto Morto) também produzido pela Terratreme, e onde o Pedro Pinho trabalhou como director de fotografia. Já nessa altura o tinha ouvido largar o zum-zum de que a produtora estaria a preparar um musical neo-realista sobre o estado do mundo laboral. Lembro-me de ter ficado impressionado com a ideia da representação de um drama social e político contemporâneo com uma ferramenta aparentemente tão datada e folclórica (à sua maneira) como o realismo e a arte "engagé". A Terratreme era a turma ideal para pôr à prova e repensar essa estética. Por um lado, por ser uma produtora com um catálogo mais ligado ao cinema documental e experimental, e por outro, por ter uma atitude que se destaca de um certo hábito canibal comum no mundo do cinema.

Volvido um ano, no verão de 2014, o Pedro e o resto da malta proposeram-me fazer um casting para esse projecto. Seria feito com não-actores. Precisavam de um operário-vocalista de rock, que trabalhasse numa fábrica num processo de insolvência e que entraria em autogestão pela mão dos trabalhadores. Para compor o ramalhete, paralelamente, haveria uma janela para a vida íntima e familiar dessa personagem. Fizemos umas experiências e entrei na viagem com o mesmo espírito com que se aceita o biscate mais improvável..

Nunca tinha participado num projecto assim em que visse tantos recursos e tantas cabeças ao serviço de uma ideia tão entusiasmante. Desde textos, participações várias, um trabalho de campo intensivo, outros filmes, reflexões emprestadas, contributos pessoais dos actores... É um filme pensado com a ajuda de dezenas de pessoas.. Para além da sua execução material.

O grupo dos operários tornou-se um "gang" muito depressa. Como erámos uma equipa de não-actores, creio que entrámos todos no mesmo pé, com o nervosismo e a insegurança típicas da chegada a um novo emprego ou a um novo grupo de uma qualquer actividade. Com períodos de adaptação relativamente curtos e em que tivemos que inventar rapidamente a nossa própria autonomia. Entre a estranheza e um certo sentido de solidariedade. Com apenas algumas directrizes, todo o grupo teve de se pôr à altura e tomar uma posição em relação aos acontecimentos, enquanto o Pedro fazia a sua ficção com olhar de documentarista.

No fim, acho que a grande marca deste filme é uma insistente mania em arriscar tudo. Mistura de géneros, de humores, de planos de realidade. Extensão de tempo de respiração sem consessões. Sem medo de parar para discutir, para depois retomar e levar a intensidade onde quiser. Sem medo de parecer ridículo e sem medo de ser o maior romance do mundo.