Hermínio Amaro


Como é que foi parar à equipa do filme?
Da seguinte forma: Fui com a minha cadela pagar a licença e vi o cartaz, uma folha A4, a pedir gente de tal e tal idade, para um filme assim e assado. E eu liguei para o número que lá estava. O João Gusmão e a Joana Bravo marcaram o encontro. Primeiro aqui num café perto de mim, estivemos juntos 2 ou 3 minutos e depois marcámos encontro com o Pedro (Pinho), o Tiago (Hespanha) e a Luísa (Homem).  E aí estiveram a filmar-me e fazer algumas perguntas.

Que tipo de perguntas?
Porque é estava interessado em entrar no filme. E a resposta que dei foi “já plantei árvores, não tive filhos porque não quis, acho que não tenho jeito para a escrita (acho, mas posso estar enganado), porque não fazer um filme? “.

Para experimentar?
Eu tinha saído da empresa onde estava - tinha desafiado o administrador, que nos ia cortando cada vez mais direitos e disse-lhe “assim se calhar mais vale ir para a terra, criar coelhos”e o administrador não se esqueceu de mim, do que eu lhe disse e passado um ano convidou-me a sair.  Eu sabia os direitos que tinha, recusei as ofertas. Quando li o cartaz estava em regime de layoff.

Houve uma coincidência entre a sua vida e o filme.
Exactamente. Fui despedido a 31 de Outubro e comecei a trabalhar no filme a 1 de Novembro. Fecha-se uma porta e abre-se uma janela.  Às vezes. Outras vezes não... Eu estava a sentir na pele o que era aquilo.  O sitio onde eu trabalhava era 50 metros à frente do sitio onde estávamos a filmar. Ia com um peso e um sentimento. Ainda me provoca emoção.

E gostou da experiencia?
Não gostei. Adorei. Visto agora, adorei. Na altura, foi pesado. Sentia-me amputado de qualquer coisa...

De quê?
Trabalhei vinte e um anos ali. Ficar sem aquilo que sempre se conheceu, que sempre se fez, uma pessoa fica um bocado sem rei nem roque.  Além de que é preciso ganhar a vida. Temos contas a pagar. Na altura foi pesado. Houve dois colegas que se suicidaram, dois que morreram de ataque cardíaco. É muito duro. E houve muita gente que passou dificuldades.

No final, o que é que esta experiencia lhe deu? Amigos. Ganhei muitos amigos. Vi que nem todas as pessoas são más e mais pessoas pensam como eu. No ser humano ainda existe alguma bondade. Há uma linha que nos separa e que nos une. E é ténue. Vou dizer-lhe uma coisa: A minha imagem preferida é a das avestruzes.  Nessa cena, o Vargas simboliza o inconformismo, a revolta, a irreverência, o que não se deixou comer.  E as avestruzes são os que metem a cabeça na areia e não querem saber. Claro que isto é a minha leitura..